MUTAÇÕES
Matéria extraída do livro “Criação
Comercial de Chinchilas” da bióloga Adriana Remião Linden e publicado
no suplemento técnico do boletim da Asbrachila – nr.6 (janeiro, fevereiro
e março de 2001)
Os
genes dos seres vivos são transmitidos aos seus descendentes por ocasião
da reprodução. Existem mecanismos celulares responsáveis pela transmissão
fiel da informação genética através das gerações. Ainda assim, podem
ocorrer "erros" ou modificações no material genético durante
estes processos de duplicação e transmissão, gerando as mutações.
Mutacões
são alteracões súbitas e hereditárias do material genético.
As
mutações podem ser espontâneas, resultantes de erros durante a replicação
do DNA (material genético) ou da presença de agentes mutagênicos no
ambiente natural ou induzidas. As mutações induzidas resultam da exposição
de organismos agentes mutagênicos que reagem com o DNA, como luz ultravioleta,
radiação ionizante ou vários agentes químicos.
Este
é um tema bastante complexo, que pode ser melhor estudado em livros
específicos de genética.Abordaremos aqui apenas as mutações que interessam
à industria de peles de chinchilas.
As
mutações que interessam em chinchilas estão relacionadas à cor
Quando
falamos de mutações em chinchilas, estamos nos referindo às mutações
espontâneas , relacionadas à cor dos pelos desses animais. É claro que
existem muitos outros tipos de mutações em chinchilas, mas nosso interesse
imediato está naquelas que afetam diretamente nosso produto final: a
pele.
Uma
mutação expontânea é produzida uma vez a cada 50.000 crias de chinchilas
(1) Em estado selvagem, as chinchilas mutantes só sobrevivem e se proliferam
se a mutação contribuir para adaptação do animal ao meio ambiente. Por
esta razão, muitas mutações são perdidas quando em estado selvagem.
Em
cativeiro, por outro lado, as mutações caso ocorram podem ser trabalhadas
através de cruzamentos dirigidos preferencialmente por geneticistas,
a fim de que se possa obter mutantes selecionados, com características
que interessam ao mercado peleteiro e que sejam transmissíveis aos descendentes.
Diversas
mutações para cor já apareceram subitamente em criatórios de chinchilas
em todo o mundo. Poucas, porém, adquiriram valor comercial. Para possuir
boa colocação no mercado, a mutação, além de reproduzir belas peles,
deve também ser estável o suficiente para que se obtenha uma boa quantidade
de peles uniformes, que possam ser trabalhadas em lotes.
Chinchila
standard, normal, cinza, selvagem ou agouti
A
chinchila "standard", "normal" ou "agouti"
é a mesma que vivia em estado selvagem nas cordilheiras, porém melhorada
através de muitos anos de seleção e cruzamentos dirigidos. Esse animal
passou de um dorso cinza-pardo, em estado selvagem, a cinza-negro azulado
e de uma barriga amarelada a branco puro.
O
termo agouti é utilizado em roedores para caracterizar o tipo de pelagem
que apresenta diferentes áreas de pigmentação sobrepostas, como ocorre
na chinchila "standard", cujas fibras de pêlo possuem três
zonas bem distintas: cor de fundo escura, banda branca e pontas pretas.
O dorso cinza-escuro e a barriga branca produzem o contraste característico
entre a região central e as laterais das peles de chinchila.
São
vários os pares de genes que determinam cor em chinchilas
Como
o pêlo da chinchila é composto por camadas sobrepostas de coloração
distintas, pode-se concluir que existem diferentes pares de genes responsáveis
por essa diversidade de cores. Assim sendo, são várias as possibilidades
de mutações, já que são vários os genes envolvidos. Mutações em diferentes
genes produzem diferentes efeitos, o que indica uma grande possibilidade
de variações para cor em chinchilas.
Nas
décadas de 60 e 70, as mutações despertaram grande interesse da indústria
de peles devido ao seu potencial para conquistar um mercado interessado
em novidades. Nesta época, foram realizados estudos sobre genética em
chinchilas visando uma melhor compreensão das mutações para cor e seus
padrões de herança. Os diferentes pares de genes e seus símbolos, bem
como as descendências esperadas do cruzamento das diversas mutações,
podem ser encontrados nas publicações "A Textbook of Chinchilla
Genetics", de E. T. Kelley, ou "Basic Genetics of the Coat
Color of Chinchilla", editado pela Mutation Chinchilla Breeders
ASS'N, ambas em 1970.
As
mutações podem ser dominantes ou recessivas
Conforme
o tipo de herança de uma mutação, podemos classificá-las como dominante
ou recessiva. As mutações dominantes são aquelas que, quando cruzadas
com animais standards, produzem descendentes na proporção de 50% standards
e 50% mutantes. Ou seja, já na primeira geração nascem filhotes da mesma
mutação de um de seus pais.
Já
as mutações recessivas, quando cruzadas com standards, produzem apenas
animais standards na primeira geração. Na verdade, esses descendentes
são fenotipicamente standads, mas, carregam o gene da mutação em sua
carga genética. Assim, quando cruzados entre si, produzem filhotes na
proporção de 25% mutantes e 75% standards. Destes 75% standards, 50%
serão portadores do gene da mutação, como seus pais. Simplificando,
as mutações dominantes aparecerão no fenótipo (aparência externa) do
animal sempre que um gene de mutação estiver presente no genótipo (carga
genética). Já as recessivas, aparecerão no fenótipo apenas quando estiverem
presentes dois genes para mutação no genótipo, um herdado do pai e outro
da mãe. Se houver apenas um gene, o animal terá fenótipo standard e
será portador do gene da mutação, podendo transmiti-lo aos seus descendentes.
Mutação
negra ou Gunning Black Velvet
De
todas as mutações que surgiram até os dias de hoje em chinchilas, a
Black Velvet, conhecida como negra na América do Sul, é a de maior sucesso
e a única que possui bom mercado na indústria peleteira atual.
O
mutante que originou os black velvets foi uma fêmea nascida de pais
standard, em 1955, em Utah, EUA. Essa fêmea possuía apenas machas negras
na cabeça, ao redor dos olhos e focinho, tendo chamado a atenção de
Robert Gunning, criador conceituado no ramo de seleção e melhoramento
genético. Através de cruzamentos dirigidos entre chinchilas com mancha
negra e standards cuidadosamente selecionados, após cerca de doze anos
o sr. Gunning conseguiu produzir animais com véu negro cobrindo todo
o corpo, com exceção da barriga branca. Em 1967, o mercado conheceu
as primeiras peles da Mutação Gunning Black Velvet ("veludo preto")
o que causou um grande alvoroço na indústria da chinchila e uma supervalorização
dos exemplares negros.
Essa
mutação é do tipo dominante, o que favoreceu sua disseminação, já que
metade dos filhotes que nascem da cruza de um negro com standard são
negros. Por outro lado, existe um fator letal associado à mutação, que
causa a morte dos fetos homozigotos negros (dois genes de mutação).
Por este motivo, os black velvet não devem ser cruzados entre si.
Além
do véu negro e brilhante em todo o corpo, os black velvet possuem uma
textura particular, aveludada, de grande beleza. As peles dos mutantes
negros são muito valorizadas no mercado, desde que sejam de boa qualidade.
É
muito importante selecionar corretamente os animais standards a serem
cruzados com negros. Há casos de cruzamentos mal realizados que originam
animais impuros, com reflexo e opaco. Os standards escolhidos para cruzar
com negros devem possuir ótima qualidade de pele, pureza, véu preto,
completo e brilhante.
Os
black velvet possuem um comportamento mais agressivo do que os standards
e as fêmeas, em geral, são menos prolíferas.
Os
filhotes da mutação negra são reconhecidos ao nascer pela presença de
pêlo preto na cabeça, em especial, próximo ao focinho. Também é fácil
diferenciar pelas patas dianteiras: as mãos do standard são brancas
e as do negro possuem a parte superior preta. A cor do lombo de um filhote
recém-nascido negro é semelhante à de um standard escuro.
Na
qualidade de geneticista especializada em melhoramento genético de chinchilas,
gostaria aqui de dar um conselho aos novos criadores: só introduza negros
em seu plantel após possuir standards uniformes e de boa qualidade.
Se esta mutação, como qualquer outra, não for bem-trabalhada, pode introduzir
uma série de características indesejáveis no plantel. Procure sempre
assessoria técnica ao trabalhar com mutações, seja consciente para não
perder as boas características que você já possui.
Outras
mutações de menor importância para a indústria
Vários
tipos de mutações surgiram nos criatórios de chinchilas espalhados pelo
mundo, mas nenhuma conseguiu se firmar como a black velvet.
A
mutação bege possui algum interesse comercial, mas o problema está em
uniformizar o tom de cor dos mutantes beges para produção em maior escala.
Esses animais variam de uma coloração creme até bege escuro. Existem
mutações bege do tipo dominante (bege Tower-Delaney) e recessivas (bege
Wellman e Sullivan entre outras.
As
chinchilas de mutações brancas não têm boa aceitação no mercado, pois
não possuem véu e não têm o contraste característico entre barriga e
lombo. Existem vários tipos de mutações brancas, sendo a Wilson White,
mutação dominante com fator letal, a mais conhecida. Através de cruzamentos
com brancos podem ser obtidos animais dos tipos silver e mosaico.
As
mutações mais conhecidas que produzem peles com tonalidades azuis acentuadas
são a safira e a violeta, ambas do tipo recessivo. Os mutantes da primeira
apresentam lombo azulado e os da segunda, duas diferentes tonalidades
de violeta.
A
mutação denominada charcoal ou preto-carvão-vegetal merece atenção especial
pelos problemas que causa aos criadores de chinchilas. Esses mutantes
possuem o lombo variando de cinza muito escuro até um preto quase perfeito,
em geral têm ótimo véu e textura sedosa. O problema é que a barriga
dos "charcoal" é marrom, e não branca como exige o mercado
de peles. Sendo uma mutação do tipo recessiva, fica "escondida"
nos portadores, que tem fenótipo "standard" mas carregam o
gene "charcoal". Quando dois portadores são cruzados, aparece
a barriga marrom tão rejeitada pelos peleteiros. Para agravar ainda
mais a situação, o fato desses animais possuirem cor muito escura e
ótimo véu fez com que eles fossem utilizados para melhorar essas características
de animais standards, o que aumentou muito a frequência de standards
portadores de gene "charcoal" no mundo. Através de uma criteriosa
análise de progênie de todo o plantel, é possível, para aqueles que
têm bons conhecimentos de genética, detectar e eliminar os portadores
de genes "charcoal" das linhas de cria.
O
cruzamento de diferentes mutações entre si tem originado animais com
diversas tonalidades de cor e textura. Entre esses podemos citar toque-de-veludo,
resultante de cruzamento entre negro e bege, o pink, entre bege e branco,
o velvet-charcoal, entre negro e charcoal, o safiro-real, entre safiro
e negro e o castanho-andino, entre bege e charcoal.
Existe
um grande potencial a ser desenvolvido no campo das mutações em chinchilas.
Este é um tema que deve ser muito melhor estudado para que se possa
lançar ao mercado produtos que sejam atrativos para a indústria peleteira,
na quantidade e uniformidade necessárias.
(l) Estimativa de LABEREE, E. E., citado por Juan Grau
em .”LA CHINCHILLA: SU CRIANZA EN TODOS OS CLIMA". 1992.