VENDA
PÚBLICA DE PELES
PORTO
ALEGRE 08 E 09 DEZEMBRO 2001
Artigo
escrito e gentilmente cedido por Carlos Luis Perez sobre a venda pública
de peles de Porto Alegre em dezembro de 2001. O sr. Carlos Perez é presidente
da associação nacional dos criadores de chinchila no Brasil, a ACHILA,
juiz internacional e o pioneiro na criação de chinchilas no país possuindo
mais de 30 anos de experiência como
criador. Proferiu palestras e cursos na Argentina, Brasil e Chile
junto a outros criadores tradicionais como Patrícia Sullivan do México;
Hector Aleandri e Angel Orsi da Argentina, Guillermo Holzer do Chile
e outros importantes criadores do Brasil.
No evento organizado
pela Chillacenter em Porto Alegre no último fim de semana foram comercializadas
aproximadamente 4.400 peles. Participaram mais de 100 criadores, alguns
vendendo somente 2 ou 3 peles
( iniciantes) e outros com lotes de até 500 peles.

Carlos
Perez e Wanderlei Buotempi vendendo peles para
Sr. Brent Poley e Dr. Rogério Oliveira
assistindo
Teve também o tradicional leilão de
machos importados do Sr Shoot dos EUA e 03 deles superaram os US$ 1.000.
O mais disputado
atingiu o valor recorde de US$ 1.440 equivalentes a
R$ 3.450,00. Foram leiloados 41 machos e a média por animal foi
de aproximadamente US$ 600 por reprodutor.
Todos os animais foram arrematados pelos presentes durante o
evento que se prolongou até altas horas do Sábado num ambiente de muito
companheirismo e alegria. É
de destacar também a magnífica
atenção dos anfitriões, a família Gutierres
de Oliveira, dada a todos os participantes.
Durante
a compra de peles realizada por Brent Poley da Canchilla Limited Associated
de Canadá observei que
no Brasil nada mudou. Os bons criadores de sempre venderam suas peles
na média normal de US 30 a US$
35 com picos de preços de US$44
a US$50 pelas melhores ( grandes, densas, escuras e sobre tudo sem CLAPAS
e com barrigas LIMPAS).
Muitos criadores venderam a preços
mais baixos. ( peles pequenas, claras, muitas clápas, algumas
com até 4 e 5 buracos, barrigas sujas ou
cinzas, imaturas, pêlo curto com tons vermelhos ou marrões, etc..).
Com meus mais de
30 anos de criador e tendo participado de todas as vendas de peles realizadas
no Brasil e muitas outras no exterior sempre me defronto com esta grande
tristeza, e as vezes
me pergunto: Será que nós,
os mais antigos ( que não somos
poucos) não ensinamos direito durante nossos julgamentos nas exposições, palestras e cursos de como corrigir
estes defeitos ou erros ?.
Será que todo este trabalho de ensinamentos
não serviu de nada ? Ou será que estes criadores foram mal orientados
pêlos fornecedores dos seus animais, somente interessados em vender-lhes,
sem se preocupar em repassar os
ensinamentos básicos ?.
Todos os manuais,
livros, matérias em jornais, revistas, TV, etc. sempre tem algo a este
respeito. Sempre se fala
muito sobre QUALIDADE, MANEJO
e MANUSEIO, fatores básicos
para ser um bem sucedido criador de chinchilas.
Os maiores defeitos que o comprador
canadense apontou nas peles nesta venda pública foram sempre
referente a estes três fatores assinalados acima e com maior assiduidade
os referentes ao manejo
e manuseio.
Os
mais ouvidos foram:
Clapas
( falta de pêlos e buracos)
Rasgadas ( costuradas,
couro fino ou fraco )
Barrigas sujas
( amarelada)
Peles mal estaqueadas
( fora de padrão e forma )
Falta de maturação
( fora de prime)
Reflexo
vermelhos, amarelos ou marrons.
Na palestra proferida
em 08 de junho de 1988, a convite do Nucesul, em Camaquã–RS
sobre o tema “PRODUÇÃO DE PELES” todos estes problemas foram
muito bem tratados e explicados pelo que a
finalidade deste comentário será
mais uma vez falar sobre Manejo
e Manuseio, tentando fazer um resumo
dos erros e a melhor forma de corrigi-los.
PROBLEMAS
DE MANEJO E MANUSEIO
Na criação de chinchilas
a palavra manejo refere-se
ao trabalho realizado dentro do criadeiro com todos os animais e manuseio estritamente ao animal em si, e especialmente o destinado
a pele que é o fim da linha
da nossa industria. E
é neste momento após a venda de suas peles que o criador
deve parar para pensar se tem que remanejar o seu plantel ( se o problema for qualidade),
as instalações ( se o problema for
manejo ) e por último
o acabamento ou finish das peles (se o problema for manuseio).
Clapas.
( Manuseio )
Esta é a principal causa dos preços baixos. Uma pele que normalmente
vale US$ 60, com duas ou três clapas cai
hoje para US$ 24. Uma pele de preço
normal US$ 35 cai para US$ 12.
A culpa aqui é exclusivamente do criador.
Temos que ter muito
cuidado com o manuseio deste animal no momento da extração da pele.
O primeiro e maior cuidado devemos tê-lo
no momento de pegar o animal dentro da gaiola; seria muito bom
o criador com uma das mãos pegar o animal e com a outra bem aberta coloca-la
na frente da portinhola para evitar que ele pule para fora e machuque
os pêlos ou se fira. A
gordura do couro deve ser raspada com muito cuidado e paciência.
Não devemos raspar muito profundo com a colher, faca ou raspador
pois se atingirmos a raiz do pelo este ficara frágil e durante o curtimento
os pêlos cairão. Os locais
que mais devemos respeitar são o pescoço ,as ancas e principalmente
a região da barriga branca. ( borda da pele )
Devemos ter sempre a mão
estiletes ou bisturis a mais para fazer os cortes de uma passada
só. Este material se não estiver bem afiado fará com que tenhamos que
ir empurrando ele aos poucos até terminar o corte.
Cada vez que o estilete volte para continuar novamente o corte
fará um dente na borda da pele e na hora de pretender
retirá-la do corpo, com certeza rasgará.
Peles rasgadas e costuradas
Durante
o curtume o profissional deverá costurá-la e desta forma o couro perderá
sua resistência. Esta costura
será considerada pelo comprador ao equivalente a uma pele com duas ou
três clapas. ( 40% a menos
do seu valor normal )
O manuseio de uma
pele começa no exato momento em que desmamamos o animal. É a partir
deste instante que todo cuidado é pouco.
Não devemos confundir
clapas com tricofagía ou
pelo comido. O prejuízo
do criador é o mesmo, mas as causas
são diferentes. Se bem que
na tricofagía as causas
principais devem-se a falta de ventilação, calor excessivo,
muitos animais por m2 e alimentação deficiente que são problemas
de manejo, existem outras, principalmente a herança, que por ser mais
complexa merece um capítulo aparte.

Peles
com clapas
Barrigas sujas.
Aqui o problema
é de manejo.
Devemos trocar a maravalha dos animais destinados para pele uma
vez por semana no mínimo. Se for possível duas. Ventilar bem o setor
de animais para pele. Ventiladores de teto e exaustores são fundamentais
em criadeiros com muitos animais por m2 ou poucas janelas.
Eliminar periodicamente os restos de alfafa e ração que ficam
dentro das gaiolas. Os
talos e folhas de alfafa em contato com a urina e bandejas enferrujadas
mancham as barrigas brancas.
O banho de carbonato é fundamental.
Não devemos reaproveitar este pó nos animais destinados a pele,
peneirando-o. Outro
erro muito comum é colocar
muita quantidade de pó na caixa de banho ( visitei criadores
que colocavam até 15 colheres de sopa cheias ) pois, por ele ser muito
fino e pesado sempre vai ficar socado como a areia das praias
e a chinchila não
vai conseguir movimentá-lo para dentro dos pêlos ao rolar sobre ele.
Acredito que duas ou três colheres de sopa cheias sejam suficientes
para que o pó fique sempre solto e desta maneira possamos trocá-lo mais
vezes sem aumentar as despesas.
No Brasil temos épocas de secas e
chuvas. Durante a primeira
(seca) podemos dar banho 3 vezes por semana, mas durante as chuvas é
necessário faze-lo todos os dias.
Os frascos fixos de boca larga são muito úteis durante esta época
nos animais destinados a pele.
As banheiras de chapa não podem estar enferrujadas ou com resíduos
de pó colados dentro dela.
Lembremo-nos que as gaiolas
e banheiras novas sempre tem que ser destinadas aos animais para pele.
Em último dos casos, se a disponibilidade de gaiolas não é grande, pelo
menos os machos sempre tem que ser desmamados nas melhores gaiolas.
(geralmente de cada 50 machos desmamados só 2 ou 3 serão reservados
para reprodução ao contrário do que acontece com as fêmeas).

Peles
superior e inferior: barriga limpa
Peles do meio: barrigas
sujas
Pele mal estaqueada. (Manuseio)
O criador deve respeitar a forma que os peleteiros da moda querem.
Peles muito largas ou muito esticadas perdem valor.
Querer ganhar US$ 5 por uma pele mais comprida que foi esticada
demais vai nos fazer perder US$ 15 pela falta de densidade no pescoço
( pêlos muito separados ).
A pele não pode
ser estaqueada torta ou assimétrica. Existe um padrão que tem que ser
respeitado e este padrão mudou
quase nada nos últimos 20 anos.


Peles mal estaqueadas
Muito esticada - pescoço fraco
Fora de maturação.
(manejo) Com 28 semanas de
vida os animais destinados a pele devem começar a ser soprados em forma
de cruz, da cabeça ao rabo e de um flanco ao outro nas ancas passando
por cima do lombo ou costas.
O ciclo de maturação
é quando o pigmento ou cor preta azulada sai do couro, percorre as milhares
de fibras do pêlo até se
alojar na ponta ou véu. A
primeira maturação acontece aproximadamente as 32 semanas
e a partir daí se repete a cada
16 semanas ( praticamente
o mesmo do período de gestação).
Este ciclo é repetitivo e acontece durante toda a vida do animal.
O
frio influência muito na aceleração ou atraso deste ciclo de maturação
porém, não é criando a baixas temperaturas que conseguiremos regrar
este processo. A chinchila como outros animais reconhece as estações
do ano através da duração dos dias.
Dias mais longos = estações quentes, dias mais curtos = estações
frias. No seu habitat natural
se preparava para estas estações aumentando ou diminuindo a quantidade
de pêlos um pouco antes da chegada do frio ou do calor.
Sabendo isto, o criador deve se preparar também para abater seus
animais na época certa.
Como a maioria das coberturas acontecem durante o inverno e os nascimentos
na primavera, com certeza todos estes animais estarão prontos
para abate na segunda maturação
que acontecerá normalmente ao atingirem aproximadamente as 52 semanas
de vida ( final do inverno e durante a primavera do ano seguinte ).
Com os animais
nascidos nas outras estações devemos ter maior cuidado na observação
do ciclo de maturação já que nos pode obrigar a realizar a retirada
da pele na primeira ou terceira maturação, que logicamente não são as
ideais, pois na primeira perderemos tamanho e na terceira o risco do
pêlo sujar é maior; mas independente disso serão as que poderemos controlar
melhor pois a quantidade de animais para abate será bem menor que os
nascidos durante a primavera.
O ciclo de maturação
começa pela cabeça, passa pelo pescoço e finalmente vai até a região
da cauda, espalhando-se pelas costas, flancos e ancas como é mostrado
na foto abaixo. O
animal fica no ponto ( prime ) durante aproximadamente 01 a
03 semanas. Durante
este tempo o criador soprará o animal e verá o couro em toda sua totalidade
é de uma cor branco/ rosado
ou creme.

Pele
da esquerda
Pele da direira
está
matura
totalmente imatura
Poderá ver também nas costas ou flancos alguns pequenos pontos escuros
azulados, que se não são muitos ou grandes a sua interferência na qualidade
da pele será quase nula ( acabamento ou Finish ).
Esta desculpa não vale para a região do pescoço que jamais devera
ter esta cor azul escura ou uma dupla banda branca ( característica
principal da região imatura com o pigmento subindo pelas fibras do pêlo)
pois com certeza isto acontecendo a famosa e tão procurada cobertura
de véu não se estenderá até a cabeça e os pêlos do pescoço ficarão ralos,
claros, fracos e sem elasticidade.

Obs.
Se
todas as peles fossem iguais em tamanho, pureza, tonalidade, densidade,
comprimento do pêlo, etc a pele da esquerda
( matura ) valeria
US$ 45, a do meio US$ 30 e a da direita ( imatura) no máximo
US$ 20.
Avermelhadas. (manejo) Se o criador, após realizar a análise da descendência ou provas
de progênie, e chegar a conclusão que este problema não é genético ou
hereditário terá de rever o estado das instalações de criação. As causas
aqui podem ser:
a) Ventilação
inadequada, ( excesso de umidade e amônia no ar).
b) Gaiolas
e bandejas enferrujadas. ( a ferrugem está sempre úmida pela
falta de ventilação e juntamente com a amônia da urina tinge os pêlos
da cor marrom)
c) Maravalha sem
trocar seguidamente.
d) Falta de banho
ou pó sujo.
e)
Água impura, sem filtrar ( o barro e ferrugem geralmente depositado
nos fundos das caixas de água é ingerido e alguns dos
pigmentos podem passar para o couro que durante o ciclo de maturação
passará para os pêlos ).
f)
Raios solares que entram
pelas portas e janelas e batem diretamente em cima dos animas desbotam
a cor cinza azulada do véu.

Todos estes erros
de manejo e manuseio podem ser corrigidos. É só o criador querer. Com paciência
e boa vontade estes problemas podem ser saneados em poucos dias.
Muito diferente aos problemas provenientes de falta de qualidade
que em alguns casos podem demorar
3, 5 ou mais anos.
Durante a venda.
O Sr. Poley também reclamou
de outros problemas com as peles oferecidas, tais como peles pequenas,
claras, barrigas cinza, avermelhadas, pelo curto, pouca densidade, etc.
Estes problemas de qualidade
que por serem mais complexos, serão tratados em outra oportunidade.
Este trabalho não
é definitivo e como foi dito no inicio é um resumo
das prováveis causas e efeitos que fazem com que uma pele seja vendida
por um maior ou menor preço. Lembre-se. Não é a chinchila de boa qualidade
que não dá lucro. Sempre será o mau criador.
Carlos
Luis Perez
Presidente
ACHILA-BR